Vote banana

Houvesse eleições na feira, na quitanda ou no supermercado, para eleger o soberano entre todos os hortifrutigranjeiros, e houvesse justiça no pleito, a eleita seria a banana.

Pois entre legumes, verduras, frutas, e até mesmo considerando os ovos e o queijo, não existe alimento mais altruísta, mais humanitário, mais cheio de amor para dar. A banana é um carinho com a gente!

Contestariam os maracujás de gaveta, murchos, pois onde já se viu reinado sem coroa – Veja ali o abacaxi em toda sua majestade! Alianças se formariam para tentar fazer a banana escorregar em sua própria casca, mas hoje em dia, quem é que não olha manga com leite ao menos um pouco desconfiado?

É banana na cabeça.

Que fruta mais humilde! Amarelinha dentro e fora, sem todo aquele guéri-guéri dos kiwis e carambolas, que a gente até se confunde para saber como se come. O design? Minimalista, funcional. Cabe na mão tão direitinho! A casca não pede faca, e banana não precisa lavar.

Não tem semente pra cuspir, e nem caroço que engasgue a quem quiser comer com pressa.

* * *

No segundo turno, banana e cenoura. Voto a voto.

Banana frita. Banana assada. Amassada. Na farofa.
Cenoura crua. Cenoura cozida. Cenoura purê. Cenoura suflê.

Cuca de banana.
Bolo de cenoura.

Na vitamina.
Com laranja.

Banana e cenoura. Cenoura e banana.

Para o macaco.
Para o coelho.

É banana!
É cenoura!

E se for a criança? E se for o bebê?

É, banana… preferem você!

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Barata tonta

Nas profundezas do sistema municipal de esgoto, um vislumbre de luz. Anteninhas se agitam em grande excitação. É hora, é hora! Prepara-se Filomena para subir à superfície. Um ralo fora do lugar! Chance rara e definitiva para elas, as baratas, levarem uma vidinha melhor (pois habitam o escuro e úmido dos canos, mas só por falta de outra opção, mesmo). – Filomena, você se considera um inseto afortunado? – Nós, baratas, não acreditamos em sorte. Nós, baratas, acreditamos em oportunidade! – Aplausos ao longe, e gritinhos nervosos. Sobem ligeiras as patinhas, vencendo com determinação o longo túnel metálico. O que não faz um ideal! Ambiciosa barata, guiada pela aspiração maior da liberdade; chegando próximo a seu objetivo, pensa em quão boa não seria sua vida em um apê em Copacabana. Quando, ao fim do caminho, sua grossa casca se banha finalmente de uma claridade jamais vista, a barata, ah!, a barata se deslumbra. Todo plano traçado, todo sonho, toda meta se embaralha dentro daquele corpinho duro. Não há exoesqueleto que contenha tamanha alegria. É assim que a barata se entontece, é assim que a barata corre atarantada para todo canto. E quando surge a vassoura, quando aparecem as sandálias havaianas, então compreendemos porque elas, baratas, não acreditam – mesmo – em sorte.

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Modo: vibracall

Deslizo lentamente,
sob ritmo constante,
sem temer o que há em frente
– o abismo inevitável

Sobre a mesa que estremece,
desse meu destino cúmplice,
tal qual se compadecesse,
sigo firme a cada toque

Logo um silêncio breve,
rendição anunciada,
e à perda da chamada
– Avante!
dá-se a queda

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Despertadores

Hoje o céu amanheceu negro.

Os despertadores tocaram como tocam todos os dias, mas ninguém acreditou que já era manhã.

– Relógio maldito! – e os atiravam ao chão.

(Hoje bilhões de despertadores precisam de conserto.)

Às nove horas não se via na rua as pernas apressadas, correndo em direção aos escritórios. Só havia a calma dos ébrios, com seus passos arrastados, caminhando sem rumo com suas garrafas vazias por uma noite infinita.

Passava das onze quando alguém, provavelmente entediado de tanto dormir, percebeu que algo estranho acontecia:

– Mamãe, mamãe! Onde está o sol?

Na cama, ainda com sono, sua mãe esticou o braço e abriu um pouco a persiana:

– Encoberto, meu filho, como em todas as noites.

– Mas e a lua, onde está a lua? Também não a vejo!

– Atrás das nuvens, querido. Agora vá, volte para seu quarto e durma.

Amanhã serão novamente culpados os despertadores.

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Do pó ao pó

De tudo que existe no mundo, do nosso primo macaco até a mãe da gente, incluindo o próprio Deus ou qualquer outra divindade em que se acredite; de todas as coisas que existem na face da Terra, enfim, acredito que nada é tão próximo do homem, nada demostra tanta compreensão do que somos, do que aquilo a que chamamos biscoito.

Pois o biscoito nasce de coisa tão solta, tão livre e desatada; a farinha que não se acomoda, que não se prende, até deixar-se envolver em um encontro macio e amanteigado. Tal mistura converte-se em uma só massa, e essa massa, em pequenas massinhas. E logo em seguida vem o calor, que faz crescer, avolumar e maturar. No fim, dos mesmos ingredientes, das mesmas condições e talvez até dos mesmos moldes, resulta um tabuleiro de individualidades.

Filhos de uma mistura só, nenhum biscoito é igual ao outro.

E por trás das fôrmas e das convenções, e para além da estima pela repetição de tipos e feitios, existem sempre três ou quatro biscoitos que perceptivelmente se rebelam. Em demonstração clara de inconformismo, deixam pelo caminho até mesmo pedaços de si, rompendo com o que é esperado de sua natureza – a unidade, a obediência à forma, a coerência, a previsibilidade.

No fim da vida ou do pacote, indistintamente homem ou biscoito, o desejo de permanecer. De forma leve e serena, mas apegada à matéria e ao que mais se puder agarrar. Do pó ao pó; de farinha a farelo, somos todos polvilhos, sequilhos e cream crackers.

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Sobre as pequenas alegrias

Existe um segredo sobre as pequenas alegrias.

Poucos sabem, mas, na verdade, elas são muito tristes e deprimidas.

Imagine uma pequena alegria, cheia das boas intenções, que só queria agradar.
(Uma dor de cabeça que passa, um elevador que aguarda no térreo, um ônibus com assentos vazios.)

Coitada.
Quase não se nota.
Nem um sorriso recebe, muitas das vezes.

Então vêm as grandes alegrias, covardes!, covardes!, a passos largos, arrebatadoras, com seus feriados emendados, seus filhotes de labrador, seus primogênitos, suas casas próprias, suas viagens para ver o Mickey Mouse… No mesmo instante as pequenas alegrias se murcham num canto – desoladas, impotentes, pequenininhas mesmo.

E ainda que se juntem todas, uma sucessão de pequenas alegrias sempre passa como um mero acaso. No máximo como um dia bacana, desses que se esquece fácil quando as malas estão prontas para ir ver o Mickey Mouse.

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Fósforos

Veja os fósforos, quarenta obstinados fósforos, tão firmes em seu único propósito.
Riscar, acender, apagar.
Riscar, acender, apagar.

Diminutos kamikazes de madeira em pelotões de admirável presteza.

(Quanta coragem se encerra em cada caixinha de fósforos!)

Avante, pequenos soldados.
Prossigam em sua missão.
Entreguem-se até virar brasa
à vida, que é combustão.

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