Do pó ao pó

De tudo que existe no mundo, do nosso primo macaco até a mãe da gente, incluindo o próprio Deus ou qualquer outra divindade em que se acredite; de todas as coisas que existem na face da Terra, enfim, acredito que nada é tão próximo do homem, nada demostra tanta compreensão do que somos, do que aquilo a que chamamos biscoito.

Pois o biscoito nasce de coisa tão solta, tão livre e desatada; a farinha que não se acomoda, que não se prende, até deixar-se envolver em um encontro macio e amanteigado. Tal mistura converte-se em uma só massa, e essa massa, em pequenas massinhas. E logo em seguida vem o calor, que faz crescer, avolumar e maturar. No fim, dos mesmos ingredientes, das mesmas condições e talvez até dos mesmos moldes, resulta um tabuleiro de individualidades.

Filhos de uma mistura só, nenhum biscoito é igual ao outro.

E por trás das fôrmas e das convenções, e para além da estima pela repetição de tipos e feitios, existem sempre três ou quatro biscoitos que perceptivelmente se rebelam. Em demonstração clara de inconformismo, deixam pelo caminho até mesmo pedaços de si, rompendo com o que é esperado de sua natureza – a unidade, a obediência à forma, a coerência, a previsibilidade.

No fim da vida ou do pacote, indistintamente homem ou biscoito, o desejo de permanecer. De forma leve e serena, mas apegada à matéria e ao que mais se puder agarrar. Do pó ao pó; de farinha a farelo, somos todos polvilhos, sequilhos e cream crackers.

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2 respostas para Do pó ao pó

  1. Lerê disse:

    muito amor!
    sempre soube que tu era philósopha com inclinações existencialistas!

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