Bisos

Um passeio ao Tejo
e um beijo roubado
por um namorado um tanto audaz
um dia fizeram um pai muito irado
– Não verás minha filha, ó pá, nunca mais!

Um roubo de beijo,
um desejo calado
e um grande navio ancorado no cais
Destino traçado! Rio de Janeiro!
e que os bons ventos embalem os casais

Quem sabe não fosse um pai muito bravo
há mais de um século, lá em Portugal
Manoel e Maria não teriam emigrado
e eu não seria Mariana Amaral.
Anúncios
Publicado em Poesias | Deixe um comentário

Cafuné

– Ai, sai, sai, sai de cima!
– Que houve, Maria Lúcia?
– Broxei, César, broxei.
– Hã?
– Broxeeeei, César, broxeeei. Tô broxa. Perdi a vontade. Perdi o tesão. Perdi o clima. Sai de cima de mim, fazendo gentileza?
– Mas… e lá mulher broxa? Não tô entendendo mais nada!
– Não tá entendendo? Deixa eu te explicar. Mulher broxa sim. É, às vezes acontece. Porque mulher chega um dia que cansa, sabe. E hoje é o dia que eu não suporto mais você vindo pra cima de mim nessas meias cor de carne, nessas cuecas mal lavadas, e nem venha dizer que fui eu quem lavou mal, que aí é que vamos ter sérios problemas.
– Meu benzinho, que revolta é essa? Eu só queria fazer um amorzinho gostoso, pra relaxar um pouquinho, hein…
– É, César, mas de amorzinho gostoso eu tô cansada, sabe. Eu quero que me agarre que nem fêmea, quero que me coma direito, que me pegue pelas ancas, mas você vem com esse cheiro de metrô às seis e meia pra cima de mim, fica dando essas bitoquinhas sem graça no meu ombro, qual que é, César!
– É carinho, Maria Lúcia, é carinho… você sempre gostou de carinho, nunca disse nada…
– Nunca disse porque era reprimida, porque mamãe não me criou pra falar dessas coisas, mas a Marie Claire me disse essa semana que a gente tem que ser ousada, sabe, que a gente tem mais é que dizer do que não gosta, e eu não gosto dessas meias, César, eu odeio essas meias cor de carne!
– E quem é essa Marríclé que você fica contando nossas intimidades, hein, que tá te enchendo a cabeça de bobagem?
– Marie Claire não é ninguém, César, é uma revista, revista moderna com coisas modernas pra gente pensar, pra não aguentar mais marido em pleno 2010, era do computador, fazendo amorzinho gostoso ainda.
– Então é pra eu fazer o quê? Pra te colocar de quatro, chamar de cachorra, te dar um tapa, essas coisas?
– Ai, César, tapa também não, né?
– Tá… Então… fica aí de quatro… vadia!
– Poxa, César… vadia?
– Ué, Maria Lúcia, você que falou que… Maria Lúcia… Ah, Maria Lúcia, não chora…
– Você nunca… me chamou… assim…
– Meu amor, vem aqui, eu pensei que fosse pra… Você queria… mais moderno… Ah, meu bem…
– Poxa, me trata que nem bicho, que nem uma fêmea qualquer…
– Mas não foi o que você pediu?
– Ah, César… me faz um cafuné.

Publicado em Crônicas | 1 Comentário

Impermeável

Senhora Teresa de Andrade e Silva, ou melhor, senhorita, arruma as malas para um fim-de-semana em uma pousada de praia. Separa um maiô, uma canga colorida e um casaco impermeável, daqueles com capuz. Não precisa checar a previsão do tempo; certamente serão dois dias de sol e chuva. E pelo lobby, pela areia, pela quadra poliesportiva, pela beira da piscina e por mais onde andar sozinha com suas galochas, sabe que olharão confusos para ela, e para o céu, e para ela mais uma vez. As famílias, os casais, as crianças. Mas Teresa não vai se importar. Cada um sabe de suas tempestades.

Publicado em Contos | 1 Comentário